Rafael Cardoso Psicanálise

Relacionamento com narcisista é um dos maiores desafios na nossa experiência contemporânea. Além de ser um dos maiores questionamentos que recebo, é também uma dúvida recorrente em quem busca processo terapêutico. Por isso, entenda aqui como essa dúvida pode trazer para você esclarecimentos pertinentes capazes de lhe dar melhores parâmetros para decisões.

Lembre que essas decisões precisam estar alinhadas aos seus próprios interesses. Não adianta criar a expectativa que esse conhecimento seja de interesse do abusador tóxico que possa estar se relacionando com você.

Sabe por quê?

Porque o intuito desta postagem é lhe incentivar a buscar emancipação emocional e intelectual. Liberdade, naquilo que seja possível, expressa também o ambiente para melhores escolhas para a sua vida.

Portanto, convido você a trilhar este conteúdo na construção de melhores saberes para a prática mais equilibrada de vida. Evidentemente, usando a psicanálise na prática para enxergar melhor a si e suas inúmeras camadas subjetivas e complexas, tal como qualquer indivíduo.

Quem já esteve num relacionamento com narcisista sabe que é muito mais difícil sair do que parece. Mesmo quando a razão grita “vai embora!”, algo mais forte nos prende. E, na maioria das vezes, esse algo é invisível, inconsciente, e profundamente enraizado. É sobre isso que quero conversar com você neste texto: por que tantas pessoas permanecem em relações dolorosas com parceiros narcisistas? O que a psicanálise pode nos dizer sobre isso?

Este artigo é fruto de anos escutando histórias reais no consultório e estudando teorias que ajudam a entender a teia subjetiva que nos envolve quando o amor se confunde com dor, culpa e dependência. Se você está vivendo ou viveu um relacionamento com narcisista, talvez se reconheça aqui. E, quem sabe, possa começar a se libertar.

O que é um narcisista, afinal?

Antes de mergulharmos nas razões do apego, é preciso esclarecer de quem estamos falando quando usamos a palavra narcisista.

Na linguagem comum, esse termo ganhou popularidade e passou a descrever qualquer pessoa egoísta ou vaidosa. Mas, na psicanálise, falamos de algo mais complexo. O narcisismo é uma estrutura de personalidade marcada por um investimento excessivo em si mesmo, dificuldade em reconhecer o outro como sujeito, necessidade constante de admiração e uma fragilidade interna disfarçada de autoconfiança.

Você pode ler mais sobre as características de um parceiro narcisista neste outro artigo aqui.

O que importa aqui é perceber que o narcisista cria um vínculo que, na aparência, pode parecer forte, sedutor, intenso — mas que, na prática, funciona como um jogo de poder. E quem se envolve com alguém assim, muitas vezes, se vê preso a um ciclo de esperança, frustração e culpa.

Por que alguém se apega a um narcisista?

Essa pergunta me acompanha desde os primeiros atendimentos clínicos. Já ouvi de pacientes frases como:

“Eu sei que ele me faz mal, mas não consigo sair.”

“Não sei explicar… é como se eu esperasse que, um dia, ele finalmente enxergasse meu valor.”

“Sinto que só ele me entende, mesmo me ferindo.”

Essas frases carregam algo que está além da lógica. E a psicanálise é uma das poucas abordagens que encara essa irracionalidade de frente: porque não é a razão que nos prende, é o desejo inconsciente.

Vamos então às hipóteses que a psicanálise oferece para compreender por que alguém permanece num relacionamento com narcisista:

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1. Compulsão à repetição: revivendo o passado

Sigmund Freud identificou um fenômeno que chamou de compulsão à repetição: uma tendência inconsciente de reviver, em novas situações, experiências emocionais antigas — especialmente aquelas mal elaboradas ou traumáticas.

Ou seja: se alguém teve, por exemplo, um pai ou mãe frio, ausente, imprevisível ou autoritário, pode acabar buscando — sem perceber — parceiros com essas mesmas características, na esperança inconsciente de corrigir o passado. Como se dissesse: “dessa vez, eu vou ser amado por alguém assim.”

É cruel, mas real. O amor do presente pode ser uma tentativa de reparar o amor que faltou no passado.

2. Transferência: amando o parceiro como se fosse outro

A psicanálise entende que trazemos dentro de nós figuras internas dos nossos pais, cuidadores e pessoas marcantes da infância. Na vida adulta, sem perceber, transferimos emoções ligadas a essas figuras para outras pessoas — inclusive para parceiros amorosos.

Isso significa que, muitas vezes, não estamos amando quem o outro é, mas quem ele representa dentro da nossa história psíquica. É por isso que, mesmo diante de violência emocional, rejeição ou frieza, ainda sentimos um amor profundo. Porque não estamos só lidando com o presente: estamos diante de uma ferida antiga que se abriu de novo.

3. Idealização: o mito do salvador

Narcisistas costumam ser sedutores, encantadores, e sabem exatamente como conquistar no início, mas que haja um disclaimer, essa ideia é distorcida porque implica na impressão de que haja um ciclo organizado relativo a fases. Narcisistas são sedutores porque há uma energia implicante por parte de quem se envolve na busca por esse reforço.

Provavelmente, você tenha tanto desejo para que esse relacionamento dê certo, que exista por sua parte certas negligências e dissociações cognitivas que privilegiam o abusador.

Muitos dos meus pacientes descrevem o começo da relação como algo mágico. O narcisista se mostra atencioso, protetor, apaixonado. Porém, essa impressão não se sustenta porque a velocidade do afeto; essa explosão de afeto que ativa no outro o sentimento de finalmente ser visto.

Essa fase inicial cria uma idealização do parceiro, como se ele fosse perfeito. Depois, mesmo quando ele começa a agir com frieza, controle ou crueldade, a imagem idealizada persiste. A pessoa se apega ao que ele foi por algumas semanas ou meses, e espera ansiosamente que aquele parceiro volte a aparecer.

É um vício emocional: vivemos de pequenas doses de atenção, esperando o retorno do amor idealizado.

4. Masoquismo moral: quando sofrer parece justo

Pode parecer absurdo, mas há pessoas que se sentem mal em receber amor pleno. Elas cresceram acreditando que precisam sofrer para merecer. Que não são dignas de atenção sem se sacrificarem.

Freud chamou isso de masoquismo moral: uma forma inconsciente de buscar punição para lidar com culpas internas. A pessoa se sente melhor sendo maltratada do que sendo amada — porque, lá no fundo, acredita que não merece amor.

É como se o sofrimento fosse uma penitência pela própria existência. E relacionar-se com um narcisista cruel atende a esse roteiro inconsciente de punição.

5. Carência narcísica: a busca por validação

Alguns vínculos amorosos não são movidos pelo desejo adulto, mas por carências infantis não curadas. A pessoa sente um vazio de autoestima, uma sensação de não ter valor por si mesma, e busca em alguém — muitas vezes o parceiro narcisista — um espelho que a valide.

No início, o narcisista pode oferecer isso: elogios, atenção, fascínio. Mas, logo depois, passa a minar essa autoestima. E aí, paradoxalmente, a pessoa passa a depender ainda mais dele — como se só ele tivesse o poder de restituir seu valor.

É uma prisão emocional: você entrega ao outro a chave do seu amor-próprio, e o outro decide quando usá-la.

6. Identificação com o agressor

Esse é um mecanismo descrito por Anna Freud e Ferenczi: diante de situações de ameaça ou abandono, o psiquismo pode tentar “sobreviver” se tornando semelhante ao agressor. É uma forma de não se sentir tão vulnerável.

Assim, a pessoa que sofre nas mãos do parceiro narcisista pode, inconscientemente, se alinhar a ele — justificando seus comportamentos, assumindo a culpa, minimizando os abusos.

Essa identificação cria um pacto silencioso: “se eu entender por que ele age assim, talvez ele me ame”. Mas é um pacto que cobra caro: exige a renúncia do próprio eu.

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7. Desejo inconsciente e o enigma do outro

Jacques Lacan, psicanalista francês, nos lembra que o desejo é sempre desejo de algo que falta. E é justamente essa falta permanente que mantém o desejo vivo.

Um parceiro narcisista, por nunca entregar amor de forma plena, ativa essa dinâmica. Ele mantém a outra pessoa sempre em busca, sempre esperando, sempre tentando decifrar. E isso pode ser profundamente viciante: o sujeito deseja o que não tem, e o outro se torna um enigma a ser decifrado.

Então é impossível sair de um relacionamento com narcisista?

Não. Mas não se sai com lógica, força de vontade ou conselhos de amigas. Porque a prisão está num lugar mais fundo do que o consciente alcança.

É preciso tempo, elaboração, e muitas vezes, um espaço de escuta — como a psicanálise oferece — para que essas dinâmicas venham à tona. Só quando entendemos o porquê da nossa repetição é que podemos escolher diferente.

Eu já acompanhei pessoas que se libertaram de relacionamentos com narcisistas. Não foi rápido. Não foi fácil. Mas foi possível. E mais: foi transformador.

Um convite à reflexão (e não ao julgamento)

Se você se identificou com esse texto, quero te pedir uma coisa: não se culpe. O apego a um parceiro narcisista não é sinal de fraqueza, burrice ou falta de amor-próprio. É sinal de que há algo dentro de você que precisa ser escutado com cuidado. Há uma dor antiga que talvez ainda não tenha encontrado palavras.

A psicanálise não julga. Ela escuta. E ao escutar, ajuda você a reconhecer seus roteiros afetivos, dar nome às suas repetições e, quem sabe, escrever uma nova história.

Se quiser continuar essa conversa, meus textos estão sempre por aqui. Porque ninguém precisa atravessar isso sozinho.

Quem é Rafael Cardoso – psicanalista

Rafael Cardoso é um psicanalista que atua com uma abordagem contemporânea, pós-freudiana, estabelecida num processo analítico empático para questões emocionais e conflitos familiares.

Inclusive, isso, lhe proporciona experiência significativa no acolhimento de vítimas de abusos, especialmente relacionadas a narcisistas, borderlines e outras organizações de personalidade cujas interações possam ser delicadas.

Através da terapia online, Rafael atende diversas pessoas no Brasil e no mundo adequando o processo analítico à virtualidade da experiência terapêutica.

Pós-graduado pela PUCRS, Rafael traz uma visão humanizada diante as novas relações contemporâneas, líquidas e aceleradas. Possui um grande canal de conteúdo no TikTok sobre as dinâmicas abusivas em relações tóxicas.

Acesse também o seu canal no Youtube e conheça os materiais e palestras disponibilizadas em forma de lives e aulas instrumentalizando o manejo clínico e a psicanálise.

Para entrar em contato com Rafael Cardoso e conferir agenda de atendimento para sessões terapêuticas com o método da psicanálise, basta acessar este link e terá acesso ao WhattsApp.

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